terça-feira, 10 de julho de 2012 1 comentários

Woody Allen + Patrícia Highsmith = Dostoiévsky??????

Lembro que meu gostar de livros começou quando me mudei para um bairro distante de onde morava e voltei a estudar no período da manhã. Devia ter uns 16 anos. Por conta da minha timidez não conseguia fazer amigos, tinha apenas colegas de classe. Com os meninos minha relação era apenas de ouvir e rir das piadas infames e conversas sobre histórias em quadrinhos e com as meninas, bem... Elas eram preocupadas demais com os cabelos, com a maquiagem, com a última edição de "Capricho" e o episódio anterior de “Barrados no baile”. Não que eu não lesse “Capricho” ou não assistisse "Barrados no baile", lia e assistia, mas não tinham tanta importância a ponto de servirem de motivos para longas e empolgadas horas de conversa com elas.
Foi então, por falta do que fazer, com quem conversar, de onde ir, que descobri a Biblioteca Municipal.
A princípio ia até lá quase todos os dias para ler jornais e revistas. Com o tempo fui me embrenhando pelas estantes e descobrindo o prazer de correr os dedos pelos livros ligeiramente empoeirados. O primeiro que peguei para ler foi um de Patrícia Highsmith, “O Talentoso Mr. Ripley”. Gostei tanto de Thomas Ripley, um anti-herói que faz de tudo para se dar bem e curtir a vida adoidado, sempre passando a perna nos outros e aplicando golpes. Gamei nele. No seu jeito sombrio, no sentimento de inadequação, irônico, sua necessidade velada (?) de ser aceito, amoral, em vários momentos, patético e, a todo tempo, sedutor. Isso, Ripley é um sedutor, você não quer, mas o ama.
Não quer amá-lo porque ele mata, engana, mente como ninguém, rouba, ri da desgraça alheia e da sua própria também. Porém, do mesmo jeito que é tranqüilo agindo dessa forma, super na dele, é demasiadamente infeliz com a sua vida medíocre. Thomas Ripley tem o que há de mais podre e o que há de mais belo da humanidade.
O que me fez ler as outras obras onde ele é a personagem principal foi essa frase dele (ou algo assim): “Sabe o que é interessante sobre fazer algo terrível? É que depois de alguns dias, você nem se lembra do que fez...” e Patrícia, hábil em tratar dos absurdos humanos, faz questão de relembrá-lo dos crimes que cometeu em todos os livros da série.
Tom, de tão emblemático, foi parar no cinema. Apesar de bons atores (Matt Damon, John Malkovich, Alain Delon) interpretando-o, os filmes ficaram uma porcaria perto dos livros. Nenhum deles conseguiu passar o carisma de Thomas.
Engraçadamente, em “Match Point”, filme de Woody Allen, o tenista que tem como filosofia de vida que é melhor ter sorte do que ser bom”, interpretado por Jonathan Rhys-Meyers, consegue captar toda a essência de Ripley (com um lema como esse, já dá pra perceber que boa bisca ele não é, né?).
O filme de Woody tem, praticamente, a mesma trama, o mesmo anti-herói (claro que com outro nome), e ainda assim muita gente diz que esse filme, “Match Point”, foi influenciado por Dostoiévsky (“Crime e Castigo”). Mas para entender isso, só mesmo lendo Highsmith, assistindo ao filme de mr. Allen e lendo o Fiodor (alguém aí ainda não o leu????).
E após completar a trilogia sugerida, você se perguntará, como eu me perguntei: porque dizer que é influenciado por Dostoiévsky e não por Highsmith?
Bom, é mais cool, aos 16 anos, dizer que prefere ler Highsmith ao invés de “Capricho”, assim como é mais cult fazer um filme tendo como base “Crime e Castigo” do que “O Talentoso Mr. Ripley”....

 
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